| Seguindo
as pegadas de Cézanne na Provença

Vaison
a Romana, ao pé do monte Ventoux
A França
celebra este ano o centenário da morte
daquele que revolucionou a arte moderna. Uma
exposição histórica,
“Cézanne na Provença”,
acontece desde junho no Museu Granet de Aix-en-Provence:
uma oportunidade para refazermos os passos
do pintor em sua terra natal.
“Pinto
como vejo, como sinto, e tenho sensações
fortíssimas”, confessou um dia
Paul Cézanne, enquanto executava um
trabalho tendo como motivo a Provença.
Obcecado pela busca da “verdade na pintura”
ao longo de toda a sua vida, o artista encontrou
justamente a inspiração e uma
terra ideal para entregar-se de corpo e alma
a sua paixão. Os brilhos das cores,
a intensidade da luz mediterrânea e
a beleza das paisagens da Provença
nunca deixaram de atiçar seu olhar
de artista.
“Paul
Cézanne mantinha relações
quase carnais com sua terra natal. A Provença
foi uma fonte de inspiração
para esse pintor que revolucionou a arte moderna”,
explica Ludmila Virassamynaïken, jovem
funcionária do Museu Granet.
A casa de campo
de Jas de Bouffan |
No
coração de Aix-en-Provence
“Quando
alguém nasce lá, nada
fala mais alto”. Assim falava
Paul Cézanne de sua cidade natal,
Aix-en-Provence. Ali nasceu, em 1839,
e passou uma infância feliz com
seu grande amigo Émile Zola,
futuro mestre do romance naturalista,
que conheceu no Colégio Mignet
(antigo Colégio Bourbon), na
rua Cardinale, no bairro Mazarin. Hoje,
uma placa na fachada do prédio
lembra a passagem do grande pintor.
Foi
também nesse bairro, onde se
encontram vários casarões
dos séculos XVII e XVIII pertencentes
à aristocracia, que o jovem Cézanne
freqüentou a Escola de Desenho
do Museu Granet, entre 1857 e 1862.
É possível seguir os passos
do artista no coração
da cidade graças a um itinerário
para pedestres marcado no chão
por estacas com a inicial “C”,
de sua casa natal até sua última
residência, no número 23
da rua Boulegon, na parte velha de Aix,
passando pelo café Les Deux Garçons,
sobre o rio Mirabeau, onde vinha refazer
o mundo com Émile Zola.
Mas
foi sobretudo nos arredores de Aix-en-Provence
que Cézanne encontrou a inspiração,
a terra banhada de luz, as cores vivas
e as paisagens provençais propícias
a sua arte. Hoje, um percurso por essa
região permite um mergulho no
universo do pintor, seguindo as suas
pegadas.
Debruçada
sobre a cidade, uma bela casinha, o
ateliê de Cézanne, é
um lugar de peregrinação
para seus admiradores. Chamado também
de “ateliê dos Lauves”,
era o refúgio e o lugar de criação
do artista no fim de sua vida. Construído
em 1901 de acordo com os planos de Cézanne,
foi lá que ele pintou algumas
de suas obras-primas, como Les Grandes
Baigneuses (As Grandes Banhistas) ou
as últimas telas dedicadas à
montanha Sainte-Victoire.
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Lugar
de criação: do ateliê
à casa de campo
É no primeiro andar que se
encontra o ateliê do mestre.
No seu interior, iluminados pela luz
natural que passa através do
grande vão de vidro voltado
para o norte, os objetos do pintor
não foram retirados do lugar.
Sente-se ainda o espírito de
Cézanne, com seu avental, sua
paleta, seu cavalete, sua velha sacola
de artista e seus objetos pessoais.
Toda uma série de velhas fotos
em preto e branco encontra-se nas
gavetas da cômoda de madeira,
pedaços da vida do criador,
que hoje é o melhor embaixador
de Aix-en-Provence.
Um pouco mais acima, a dez minutos
a pé do ateliê, o “campo
dos pintores” foi refeito sobre
um mirante. Por causa de seu ponto
de vista único, Cézanne
ia regularmente pintar dali Sainte-Victoire,
que domina a região de Aix.
Reproduções da montanha
encontram-se expostas para mostrar
o trabalho genial realizado por esse
grande pintor. Do alto do mirante,
é possível contemplar
sua bela silhueta, cuja luz muda à
medida que o sol se põe.
A casa de campo da família,
em Jas de Bouffan, na saída
de Aix, e as pedreiras de Bibémus,
ao pé da montanha Sainte-Victoire,
também fazem parte dos recantos
ligados a Cézanne a serem visitados.
Restaurados para as comemorações
do ano de Cézanne, eles permitem
uma visita aos lugares de criação
do artista.
A casa de campo de Jas de Bouffan,
que o pai do artista adquiriu em 1859
e onde Cézanne realizou suas
primeiras grandes obras, está
protegida contra a ação
do tempo e dos homens. Situada a 2
quilômetros do centro da cidade,
a propriedade é uma esplêndida
casa de campo com um lago, uma alameda
de castanheiras, sua estufa e suas
esculturas no jardim. Ali, Cézanne
isolava-se para dar asas a sua imaginação.
No último andar, sob os telhados,
ainda se pode ver a vidraça
do ateliê que mandou instalar.
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A montanha Sainte
Victoire, acima da estrada de Tholonet,
1904
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Os objetos do
pintor |
Passeio a céu aberto
Nas
estradas do Tholonet e de Vauvenargues,
as pedreiras de Bibémus serviram
para a construção dos
casarões de Aix. Elas formam
uma paisagem única cuja beleza
mineral inspirou Cézanne. O pintor
alugava ali uma cabana onde armazenava
suas telas. Foi também em Bibémus
que pintou algumas de suas obras mais
cativantes, tendo como tema “árvores
e rochedos” já prenunciando
o cubismo. Hoje, o lugar passa por uma
reestruturação paisagística
e um passeio a céu aberto faz
parte do roteiro.
Por fim, Gardanne, “único
vilarejo pintado por Cézanne”,
a 20 quilômetros de Aix, merece
um desvio. Um percurso traçado
no alto dos morros oferece uma vista
do povoado, pintado pelo pintor entre
1885 e1886, do lugar onde pousava o
cavalete.
Cem anos após sua morte, Aix-en-Provence
presta uma importante homenagem a Cézanne.
A exposição no Museu Granet,
de junho a setembro de 2006, reúne
116 obras (80 óleos e 30 aquarelas)
provenientes dos mais importantes museus,
dentre as quais as célebres Les
Joueurs de cartes (Os Jogadores de Cartas),
Les Grandes Baigneuses (As Grandes Banhistas)
ou ainda as representações
da montanha Sainte-Victoire. Para Ludmila,
a jovem curadora, “trata-se de
uma exposição histórica,
uma densa concentração
de obras-primas do mundo inteiro, com
uma abordagem inédita: sua relação
com a terra natal”.
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