| Francofonia
Viva as Francofffonies!

Música, dança,
teatro, artes-plásticas...
Mais de 2.000 artistas e personalidades do
mundo francófono
participam de mais de 400 manifestações
por toda a França
De 16 de
março a 9 de outubro de 2006, um festival
excepcional homenageia, na França,
a francofonia em todas as suas formas. Uma
grande viagem ao país da língua
francesa.
Francofffonies!
O festival francófono oferece durante
200 dias, por todo o território francês,
um leque de mais de 400 manifestações,
com 2.000 artistas e personalidades de todas
as áreas. Poetas e escritores, empresários
e economistas, pesquisadores e cientistas,
juristas e geógrafos, intelectuais
e historiadores irão celebrar a língua
francesa ao longo de sete meses, língua
que amam e compartilham, falam, escrevem,
cantam, contam e defendem... Mas não
é só isso, esses francófonos,
unidos pelo laço de uma língua
em comum, – 175 milhões de pessoas
hoje no mundo – vêm dos cinco
continentes e dos 63 países-membros
da Organização Internacional
da Francofonia. Eles trazem portanto seu universo
singular, cada um com sua história
e suas tradições, seus modos
de vida e de pensar.
Escolhendo com
cuidado as palavras por sua beleza,
a contadora de histórias egípcia
Chirine Al Ansari narra as Mil e Uma
Noites durante as Jornadas do Conto
e da Poesia. |
Um
universo plural, mestiço e polifônico
Eles
formam não um bastião
de defesa da língua e do pensamento
franceses, mas constroem, pelo contrário,
um universo plural, mestiço,
que fala e escreve ao mesmo tempo o
francês e uma infinidade de línguas
“maternas”, como o inglês,
o espanhol, o árabe, o russo,
o polonês, o bambara ou o baolês,
o tcheco, o vietnamita, o castelhano,
etc.
E é dessa mistura, dessa polifonia,
que se alimenta a francofonia. O oposto
de um ato de fechamento em si mesmo,
de uma postura defensiva, ou de uma
ação impregnada de conservadorismo.
E mais ainda de uma utopia. De resto,
os três “f” do nome
de batismo do festival não deveriam
ser lidos como um tipo de acrônimo,
por parecerem tanto ilustrar a força
redobrada da efervescência da
francofonia que, como observou o presidente
francês Jacques Chirac em janeiro
passado, por ocasião do lançamento
do festival, trabalha “todos os
dias, nos cinco continentes, na pluralidade
dos povos e culturas que a compõem
[e] inventa novas formas de modernidade”. |
| Um
compromisso antigo Convém
lembrar que a ação da
França pela diversidade não
é novidade. Ela já existia
antes mesmo da invenção,
em 1880, da palavra “francofonia”
pelo geógrafo francês Onésime
Reclus. Talvez por ser a França
um dos raros países cuja língua
conheceu períodos de expansão
internacional.
Mais
recentemente, temos a criação
da Agência de Cooperação
Cultural e Técnica (ACCT) em
20 de março de 1970, sob a impulsão
de três chefes de Estados africanos
– Léopold Sedar Senghor
do Senegal, Habib Bouguiba da Tunísia,
Hamani Diori da Nigéria –
, e do príncipe Norodom Sihanouk
do Camboja. Uma estrutura que se tornaria,
em 1997, a Agência Intergovernamental
da Francofonia e, em 1998, a Organização
Internacional da Francofonia. Dessa
forma, desde 1986, data na qual foi
realizado o primeiro Encontro da Francofonia
em Versalhes (próximo a Paris),
os chefes de Estado ou de Governo que
compartilham a língua francesa
reúnem-se a cada dois anos.
Foi durante o 9º Encontro da Francofonia
em Beirute (Líbano), em 2002,
que Jacques Chirac lançou a idéia
da realização do festival
Francofffonies no ano de 2006. Mais
do que nunca, trata-se da importância
da cultura, “arma da inteligência
contra a força bruta e os obstáculos”,
da diversidade cultural como resposta
ao risco de uniformização
e da francofonia como espaço
de coabitação, garantindo
a liberdade e o progresso. |

O cartaz da Organização
Internacional da Francofonia comemora
em 2006 o centenário de nascimento
do grande escritor e
político senegalês
Léopold Sédar Senghor,
um de seus pais fundadores |

A coreógrafa
francesa Dominique Hervieu criou os
"cartões postais coreográficos",
espécie de vídeos-coreográficos
de alguns minutos, e que revelam a
diversidade de danças e mundos
sonoros francófonos.
|
2006:
um ano símbolo
O
ano de 2006 é emblemático,
pois é também o ano durante
o qual a França deve ratificar
a Convenção da Organização
das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência
e a Cultura (UNESCO) sobre a diversidade
cultural(1),
que desejou e defendeu intensamente.
Um projeto de lei que autoriza a adesão
do país à Convenção
foi, aliás, apresentado pelo
Ministro francês das Relações
Exteriores, em 22 de março deste
ano. Simbólico, 2006 também
é o ano do centenário
do nascimento de Léopold Sedar
Senghor, chefe de Estado, político,
poeta, ensaísta, que foi eleito
para a Academia Francesa em 1983. Em
outras palavras, o homem que certamente
melhor encarnou a francofonia! O encerramento
do festival, aliás, será
no dia 9 de outubro, com uma homenagem
ao 100o aniversário de seu nascimento.
Evidentemente, um grande destaque é
dado à língua escrita
e à literatura. Francofffonies
foi inaugurado de maneira esplêndida
em 16 de março, no Salão
do Livro, em Paris. O público
pôde entrar em contato com um
enorme número de autores francófonos
de além-mar, do Caribe, da África,
da Ásia, das Américas,
do Pacífico e celebrar, em 20
de março, como se faz todo o
ano desde 2001, a Jornada Internacional
da Francofonia. Em toda a França,
o livro e a língua franceses
foram homenageados.
|
Momento
forte
Também fazem parte do programa
o teatro, a dança e a música,
com mais de cem manifestações,
entre as quais a notável sexta
edição dos Encontros
Coreográficos da África
e do Oceano Índico no Teatro
da Cidade Internacional Universitária,
em Paris, de 22 a 30 de abril, uma
Festa da Música em 21 de junho
e uma noite de “portas abertas”
no Châtelet, prestigiado teatro
parisiense, no dia 9 de setembro de
2006, com os criadores contemporâneos
do Québec, que aliam arte e
tecnologia. Quanto ao cinema, no Festival
de Cannes, de 17 a 28 de maio, não
faltarão surpresas, francófonas,
claro. E, dentre as várias
exposições, a do museu
do Quai-Branly sobre as artes africanas
e asiáticas, de 26 de junho
até o final do ano de 2006,
não pode deixar de ser vista
(obras de Georges Condominas, Romuald
Hazoumé e Ci Wara).
Mas o que seria das artes e da francofonia
sem a reflexão...? Debates
e colóquios vão, certamente,
pontuar o festival. Começando
pelas jornadas organizadas em 27 e
28 de abril por Dominique Wolton,
no Senado, sobre o tema “Francofonia
e globalização”.
Uma oportunidade para o sociólogo
membro do Alto Conselho da Francofonia
e do comitê de honra do festival
explicar sua visão de mundo
para além das identidades defensivas
e, decididamente, contra o monopólio
de uma cultura dominante: “A
francofonia também é
uma oportunidade para a globalização.”
Para ele, que analisa há vinte
anos as relações entre
cultura, comunicação,
sociedade e política(2),
a diversidade lingüística
também é a pluralidade
dos encontros, a multiplicação
das viagens, uma barreira contra a
violência. E é, além
disso, a diversidade econômica,
pois, também nessa área,
“não há apenas
uma maneira de fazer negócios”.
Mélina
Gazsi jornalista
|

Humor, postura,
voz langorosa:o jovem quebequense de
vinte e quatro anos Pierre Lapointe
recebeu vários prêmios,
dentre os quais o da canção
Félix-Leclerc 2004, que premia
os novos talentos criativos franceses
e quebequenses.
|
“Há
um projeto de emancipação
cultural inegável no projeto
da francofonia: a diversidade lingüística
como condição primeira
para a diversidade cultural e a luta
contra a homogeneidade.” Dominique
Wolton.
|
Para
saber tudo
Sobre as centenas de manifestações
que acontecerão em Paris e em
toda a França, nos teatros, nas
bibliotecas, nas universidades, nos
museus, etc: www.francofffonies.fr
|
(1). Na
Unesco, a Convenção sobre a
Proteção e a Promoção
da Diversidade de Expressões Culturais
foi aprovada em Paris, em 20 de outubro de
2005, por 148 países-membros.
(2).
Última obra de Dominique Wolton: Pour
un nouveau monde francophone (Por um novo
mundo francófono), ed. Flammarion,
Paris, 2006. |