Ministério das Relações Exteriores.
Simone de Beauvoir vive


Simone de Beauvoir (1908-1986) formou com Jean-Paul Sartre um casal de intelectuais
engajados durante mais de 30 anos.

Quando ela morreu, em 1986, a filósofa Elisabeth Badinter declarou: “Mulheres, vocês lhe devem tudo!”. Vinte anos depois, Simone de Beauvoir continua a ser aquela que, com seu livro O Segundo Sexo, fez voar em estilhaços a camisa de força da pretensa “inferioridade feminina”. E viveu como uma mulher livre.

Existem moças na França, estudantes inclusive, que ignoram quem ela é. A antropóloga Françoise Héritier encontrou algumas durante um colóquio do CNRS (Centro Nacional para a Pesquisa Cientifica). Um ano depois, a professora honorária do Collège de France não esconde sua surpresa. Como desconhecer Simone de Beauvoir, autora do Segundo Sexo, um livro internacionalmente considerado como a base do feminismo contemporâneo?

Beauvoir diria, mais tarde, que não era assim que havia imaginado entrar para história, mas, como boa existencialista, assumiu o fato. Nascida em 1908, desde muito jovem tinha o projeto de não se casar, tornar-se filósofa e escrever. O casal que formava com Jean-Paul Sartre, baseado na liberdade e na confiança mútuas foi um marco da vida literária e política dos anos 1940 até os anos 1970. Como intelectuais “engajados”, ou seja de esquerda, produziram uma obra de vulto, sendo cada um o primeiro leitor do outro.

Uma mulher e uma escritora completa

Romancista, dramaturga e jornalista, Beauvoir entrelaçou vida e obra de forma inextricável. Nos relatos autobiográficos(1) quis tudo explicar e explicar-se a respeito de tudo, mantendo um distanciamento. Entretanto, sua correspondência póstuma revela, nas cartas a Nelson Algren, seu amor americano que encontrou em 1947 em Chicago e que fez dela uma “mulher completa”, amando com “corpo, coração e alma”, uma mulher encantada, curiosa a respeito de tudo, jovial e completamente apaixonada. Isto é contado em Os Mandarins, pelo qual recebeu o prêmio Goncourt de 1954.

Essa distinção não foi suficiente para abafar o escândalo provocado em 1949 pela publicação de O Segundo Sexo, uma análise política sem precedentes da questão feminina. Beauvoir demonstra que a inferioridade feminina não é natural e sim construída socialmente, fato que, no entender de Françoise Héritier, é “um modo novo de falar do gênero”. Beauvoir insiste na igualdade entre os sexos e incita as mulheres a se emanciparem, principalmente através da independência econômica. Muitos homens enfureciam-se com o livro, enquanto as mulheres o liam. Até sua morte, milhares de mulheres escreveram a Beauvoir, algumas para dizer que seu texto as tinha salvo. A americana Betty Friedan
(2) dedicou a ela, em 1963, A Mulher Mistificada, segunda obra fundadora do feminismo(3).

Mudar o mundo

Durante toda a vida, tal como Sartre, Beauvoir serviu-se de sua notoriedade para defender os intelectuais e os “oprimidos”, especialmente as mulheres. Nos últimos quinze anos de sua vida, encontrou nas mulheres do “movimento” um radicalismo e uma exigência de clareza à sua medida e ela se engajava nesse movimento entusiasmada, “porque elas não eram feministas para tomar o lugar dos homens, mas sim para mudar o mundo”, declara ao jornal Le Monde em 1978, afirmando a seguir:“Mantenho absolutamente a frase: não você se nasce mulher, torna-se”. Tudo o que eu li, vi, e aprendi nestes últimos 30 anos confirmaram essa idéia. A feminilidade é fabricada, como aliás também se fabricam a masculinidade e a virilidade”. Ela criou a associação Escolher para o Direito a uma Maternidade Desejada, em conjunto com a advogada Gisèle Halimi, o Centro Audiovisual Simone-de-Beauvoir, com a atriz Delphine Seyrig e Carole Roussopoulos e a Liga do Direito das Mulheres (ver quadro).
(Você não nasce mulher, torna-se)

“Essa mulher que não quis ter filhos tem, hoje, milhões de filhas pelo mundo”, observa com humor a escritora Benoîte Groult. Simone de Beauvoir é venerada pelas feministas, que a lêem e estudam, principalmente fora da França. A Simone de Beauvoir Society, com sede na Califórnia, realizará seu 14º colóquio em Roma, na Itália, em setembro de 2006. A jornalista Bénédicte Manier constatou que, na Índia, “em todas as discussões sobre as mulheres, ao cabo de dez minutos , as indianas citam Simone de Beauvoir”.

Em comparação, seu lugar na França é muito discreto. Seus escritos não estão incluídos no programa escolar e só encontramos 7 das 68.000 escolas francesas com seu nome. Porém, a vida é movimento. Simone de Beauvoir vai entrar para a paisagem parisiense, pois uma nova passarela sobre o Sena, em frente à Biblioteca François-Mitterrand, terá o seu nome. Um reconhecimento raro e duradouro.

“Sua herança é imensa”

Entrevista com Anne Zelensky-Tristan(4), co-fundadora, em 1974, da Liga do Direito das Mulheres, presidida por Simone de Beauvoir.


“A idéia da Liga do Direito das Mulheres partiu dela, que estava irritada com a inércia da Liga dos Direitos Humanos nesse tópico. A associação foi fundada por várias mulheres e presidida por Beauvoir. Ela sempre esteve muito presente. Em 1971, estava à frente do Manifesto das 343, assinado por mulheres conhecidas que declaravam ter-se submetido a um aborto(5). O escândalo foi imenso. Em 1972, participou das duas Jornadas de denúncias dos crimes contra as mulheres. Na sala da Mutualité(6), ela esteve sentada conosco, em círculo, no grupo do aborto.

Simone de Beauvoir foi, para mim, um modelo vivo e um modelo de vida. Já muito jovem eu quis viver como ela, assumir minha liberdade. Sempre admirei a tentativa dela e Sartre de reinventar o casal, tentativa esta que continua à frente do que se faz hoje.

Hoje, os jovens mal conhecem Simone de Beauvoir, pois ela foi extirpada dos programas. O Segundo Sexo continua sendo uma bomba para o sistema patriarcal! Apesar dos guardiães do templo, sua herança é imensa.”

Monica Valby, jornalista

Para saber mais

A obra completa de Simone de Beauvoir (romances, ensaios, correspondência, diário) pode ser encontrada na coleção de bolso “Folio”, da editora Gallimard (Paris).

(1) Memórias de uma moça bem comportada, A força da idade e A força das coisas, como também Uma morte muito suave (a de sua mãe) e A Cerimônia do adeus, a respeito dos últimos anos de Sartre, falecido em 1980.

(2) Betty Friedan, feminista Americana fundadora da National Organization for Women (NOW), faleceu em 2006.

(3) O terceiro é Um quarto seu, de Virginia Woolf.

(4) Anne Zelensky-Tristan publicou em 2005 Histoire de vivre, mémoires d’une féministe (História de uma vida, memórias de uma feminista) editora Calmann-Lévy (Paris).

(5) O aborto será legalizado na França em 1974, permitindo às mulheres que muitas vezes punham suas vidas em risco por causa de gravidezes indesejadas sair da clandestinidade.

(6) A Mutualité é uma sala parisiense onde se realizam reuniões políticas.