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ENTREVISTA
DO SECRETÁRIO DE ESTADO FRANCÊS
DOS ASSUNTOS EUROPEUS, JEAN-PIERRE JOUYET
PARA “LE BULLETIN QUOTIDIEN EUROPÉEN”
Paris,
1º de julho de 2008
Pergunta: “A
França está de volta à
Europa”, segundo o Presidente
Sarkozy. Concretamente, como se traduz
isso?
Resposta:
O Presidente da República manifestou
efetivamente o desejo de que essa presidência
marque o retorno da França à
Europa. Esse retorno é, em primeiro
lugar, político. Tomaso Padoa-Schioppa,
presidente da associação
Nossa Europa, escreveu recentemente
que “sem a França, não
teria havido e não pode haver
União Européia”.
A França, na qualidade de grande
país fundador, deve assumir as
responsabilidades que lhe cabem com
a Presidência do Conselho. Isso
traduz-se concretamente pelo fato de
que a França vai levar ao cenário
europeu um certo número de prioridades
políticas ambiciosas e realistas
nas áreas da imigração,
da energia e do clima, da defesa e da
agricultura.
Assegurar
o retorno da França à
Europa também é trabalhar
com nossos vinte e seis parceiros europeus,
com o Parlamento Europeu, com a Comissão,
com cada uma das instituições
comunitárias para fazer com que
a Presidência desenrole-se nas
melhores condições possíveis.
Foi por isso que o Presidente da República,
o Primeiro-Ministro, Bernard Kouchner
e eu visitamos as capitais européias
e nos encontramos com nossos homólogos
em cada um dos países-membros.
Esses intercâmbios permitiram-nos
progredir em um grande número
de assuntos que teremos que fazer avançar
durante os próximos seis meses.
Enfim,
o retorno da França à
Europa se manifestará por meio
de uma aproximação dos
cidadãos europeus, porque a Europa
significa, acima de tudo, mais de 400
milhões de cidadãos. Nós
determinamos as prioridades francesas
levando em conta o calendário
legislativo da União Européia,
mas também as preocupações
dos cidadãos. O retorno da França
à Europa se manifestará
portanto por meio de uma mensagem muito
clara: a Europa deve ser útil,
concreta e próxima aos cidadãos.
P.:
Conhecemos as grandes prioridades da
Presidência: imigração,
energia, clima, defesa. O que a França
está trazendo para a Europa sobre
cada um desses dossiês?
R.: Como
todos sabem, a Presidência serve
ao interesse geral. Todavia, ela pode
dar um impulso maior a alguns dossiês.
A Presidência Eslovena, por exemplo,
foi muito eficiente na gestão
das questões balcânicas.
A
França, dentro da mesma óptica,
deseja colocar sua determinação
a serviço do interesse geral
europeu sobre várias questões
que estão na ordem do dia. No
que se refere à defesa, por exemplo,
a França sempre teve uma tradição
de engajamento em âmbito europeu.
Ela colocou-se desde o início
como um dos principais artesãos
da Política Européia de
Segurança e Defesa e adquiriu
assim uma experiência e uma legitimidade
junto aos seus parceiros europeus que
lhe permitem ser uma verdadeira força
de proposição.
A
mesma observação é
válida para a Política
Agrícola Comum. Em matéria
de meio ambiente e energia, nossa experiência
e nosso engajamento na reunião
conhecida como Grenelle do Meio Ambiente
são provas de nossa determinação.
Quanto ao pacto relativo às migrações
e ao asilo, a França deseja favorecer
uma abordagem comum das questões
de integração, de luta
contra a imigração ilegal,
do desmantelamento das redes de imigração
clandestina, de asilo e de co-desenvolvimento.
Acho
portanto que a França terá
muito a oferecer a serviço do
interesse geral europeu durante a sua
presidência. Mas estou convencido
de que temos também muito a aprender
com nossos vinte e seis parceiros e
estaremos atentos para que cada um possa
fazer valer seu ponto de vista.
P.:
Nesse novo período de incerteza
institucional, a utilização
da “cláusula passarela”
deveria ser seriamente cogitada, tendo
em vista a multiplicação
das propostas na área da imigração
legal e o desejo do Parlamento Europeu
de dispor de mais poderes nessa matéria?
R.: Uma
das inúmeras vantagens do Tratado
de Lisboa, ratificado até o momento
por 19 países, é generalizar
a maioria absoluta e a co-decisão,
especialmente na área da imigração
econômica.
Os
países-membros chegaram à
conclusão, na reunião
do Conselho Europeu de 19 e 20 de junho,
de que o processo de ratificação
deve continuar e que se deve dar tempo
à Irlanda para ela possa propor
uma via comum. O Presidente do Parlamento
Europeu defendeu essas orientações.
Portanto,
nosso objetivo coletivo continua sendo
a entrada em vigor do Tratado de Lisboa.
Seria um pouco paradoxal levarmos todos
os países-membros a tomar uma
decisão por unanimidade com base
no Tratado de Nice, para modificar o
regime de decisão em matéria
de imigração econômica.
O
Tratado de Lisboa é um todo.
Além da co-decisão em
matéria de migrações
econômicas, ele contém
outros avanços fundamentais que
reforçam a eficiência na
tomada de decisão em nível
europeu e a associação
dos parlamentos nacionais. Ele também
concede poder de co-decisão ao
Parlamento Europeu na área penal,
o que o Tratado de Nice não permite
sem que haja novas ratificações
em todos os países-membros. Assim,
é preferível, por enquanto,
manter o rumo: possibilitar a entrada
em vigor do Tratado de Lisboa por meio
de um reforço muito significativo
dos poderes do Parlamento Europeu, bem
além do campo da imigração
econômica e em todas as áreas
que importam para os cidadãos
europeus.
Com
essa expectativa, a Presidência
Francesa do Conselho compromete-se a
realizar um diálogo estreito
com o Parlamento Europeu nas áreas
nas quais ele se prepara para obter
um poder de co-decisão. Será
o caso, em particular, para o que diz
respeito à diretiva relativa
aos trabalhadores altamente qualificados
(“carteira azul”), que é
a principal proposta legislativa em
matéria de migrações
econômicas sobre a qual trabalharemos
neste semestre.
P.:
O compromisso obtido na reunião
do Conselho de Energia de 6 de junho
sobre o 3º pacote legislativo pela
liberalização do mercado
de energia evita o desmantelamento dos
grandes grupos energéticos nos
setores da eletricidade e do gás.
A Presidência Francesa poderia
convencer o Parlamento Europeu, favorável
apenas à separação
de propriedade no setor da eletricidade,
a aceitar o compromisso do Conselho
para os dois setores por um acordo geral
sobre o pacote, antes de terminar seu
exercício?
R.: Sim,
porque nós desejamos que o tratamento
do gás seja idêntico ao
da eletricidade: foi exatamente essa
a constatação que prevaleceu
no Conselho de Energia de junho. Não
devemos duvidar da solidez do compromisso
alcançado no Conselho. Os debates
no Parlamento Europeu foram muito contraditórios
e tiveram que se desenrolar muito rapidamente
após o compromisso do Conselho.
É provável que as discussões
prossigam com o Parlamento para que
nossas posições se aproximem.
P.:
São conhecidas as reticências
francesas com relação
à proposta de diretiva relativa
às transferências de bens
de defesa dentro da Comunidade. A Presidência
Francesa não estaria correndo
o risco de refrear o processo legislativo
sobre esse dossiê crucial pelo
desenvolvimento da base industrial e
tecnológica de defesa européia?
R.: Não,
a Presidência Francesa fará
seu trabalho sobre o pacote de Defesa
proposto pela Comissão e visa
a um acordo público sobre esse
texto. A facilitação dos
intercâmbios de produtos de defesa
é um desafio maior para o fortalecimento
da competitividade da base industrial
e tecnológica de defesa européia.
A França está, aliás,
empreendendo trabalhos juntamente com
os principais países produtores
de armamentos europeus no âmbito
do tratado Lol para alcançar
esse objetivo; e para responder às
fortes expectativas das indústrias
nessa área.
P.:
O Senhor comprometeu-se, no final de
janeiro, a levar o modelo francês
“do particular-empregador”
ao contexto europeu durante a Presidência
Francesa da União Européia.
A União está pronta a
acolher um quadro de cooperação
no setor dos empregos familiares?
R.: Eu
disse efetivamente que, com base em
sua experiência recente e positiva
da promoção dos empregos
de serviço à pessoa, a
França deseja realizar um intercâmbio
com seus parceiros europeus sobre as
boas práticas nessa área.
A política do emprego é
de responsabilidade dos países-membros,
mas a Europa pode permitir trocas de
experiência úteis a todos.
O objetivo de redução
do desemprego continua sendo fundamental
para cada uma de nossas economias.
P.:
As críticas do Presidente Sarkozy
com relação a alguns comissários
ou à ação da Comissão
não poderiam enfraquecer a Comissão?
R.: O
Presidente da República deseja
reintroduzir a política no coração
da Europa. Suas declarações
não visam em absoluto especificamente
à Comissão Européia
como instituição. Nicolas
Sarkozy considera que a Europa deve
fazer política para não
ficar desconectada das preocupações
dos cidadãos.
Tomemos
o exemplo do petróleo. O preço
do barril nunca foi tão elevado
e está se tornando uma ameaça
para a competitividade das empresas
européias e para o poder aquisitivo
dos cidadãos. A alta contínua
dos preços do combustível
demonstra a incapacidade da União
de tomar uma decisão rápida.
Precisamos portanto mudar nossa maneira
de fazer as coisas. Trata-se de uma
questão de responsabilidade política.
O presidente propôs soluções
que devem agora ser discutidas no âmbito
europeu. Não vejo por que tais
discussões poderiam enfraquecer
a Comissão. Um mandato a esse
respeito foi concedido aliás
à Presidência em cooperação
com a Comissão Européia.
P.:
O Presidente Sarkozy encomendou a Christine
Taubira um relatório sobre os
acordos de parceria econômica
negociados pela União Européia
com os países ACP. Seria esse
um sinal de que a Presidência
Francesa pretende retomar essas negociações?
Em caso afirmativo, qual?
R.: O
relatório da Srª Taubira
demonstra de fato a atenção
contínua que a França
dá a esse dossiê. Tendo
em vista o fato de que, até hoje,
apenas um dos APEs dos seis previstos
foi concluído, nosso objetivo
é chegar, juntamente com a Comissão,
a APEs completos, que sejam verdadeiros
instrumentos de desenvolvimento a serviço
da integração regional,
nas regiões onde isso ainda não
tenha ocorrido, em particular na África.
Procuraremos fazer, em particular, com
que os APEs sejam objeto de um acompanhamento
com uma ajuda ao comércio substancial
e a preocupação com a
segurança alimentar. De fato,
no contexto atual de alta duradoura
das cotações da matérias
primas agrícolas e da agitação
social que resulta disso, a etapa de
acompanhamento dos APEs deve possibilitar
o surgimento de mercados regionais organizados
e fluidos e melhorar a prevenção
e a gestão das crises –
especialmente alimentares. A União
Européia não pode se esquecer
de que ela sempre foi o motor nas relações
com os países em desenvolvimento
graças particularmente aos acordos
ACP.
P.:
As negociações multilaterais
em Genebra parecem estar em pane desde
a divulgação dos últimos
textos de compromisso, em 19 de maio.
O Senhor acha possível que os
152 membros da OMC cheguem a um acordo
antes do fim de julho com a perspectiva
de fechamento da Rodada de Doha antes
do fim do ano, ainda sob a Presidência
Francesa?
R.:
As concessões parecem, no estágio
atual, estar desequilibradas. As negociações
de Doha tiveram um papel no referendo
irlandês. Enfim, com a aproximação
das eleições americanas,
o negociador americano não tem
mandato no Congresso para negociar e
uma nova administração
irá se instalar em janeiro próximo.
São estas as principais razões
pelas quais a conclusão da Rodada
não parece ter mais muito sentido.
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